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Tudo ou Nada (por Roberto Garcia)

Está chegando o dia. Sete de Setembro está logo ali. Muita curiosidade sobre o que vai acontecer. Jair e sua tropa esperavam fazer a virada. Acabar com essa tal de democracia, coisa boba, alternância de poder, dar ao cidadão comum o direito de escolher quem vai governá-lo. Isso é o que ele pensava. E planejava. Bota esforço nisso. O que ele teve de segurar de guidon de moto, aguentar barulheira, misturar-se com aquele povaréu entusiasmado mas que, no fundo, é um bando de chatos.

Nem se fale das conversas sopradas ao pé de ouvido, tapando a frente da boca, pra que ninguém usasse essas técnicas para advinham o que diziam. Na verdade ele sempre preferiu bater esses papos mais delicados fora de casa, num gramado, longe de ouvidos curiosos.
Foi assim que ele combinou com a trinca de generais mais fiéis, gente velha, mais experiente. Os que já apertaram o gatilho muitas vezes e mandaram que outros apertassem, sem dó, nem piedade. Eles o estimularam. Acharam que dava. Fazendo uma barulheira, berro até, pra intimidar esse bando de liberais, democratas, petistas, gente desprezível.
O diabo é que esse pessoal também já passou por boas. Perderam o medo. Eles também acham que podem resistir. Na hora do entrevero, podem fazer o inesperado. Se juntarem muitos, tiverem apoio de fora, podem também virar o jogo.
Será o que os estrangeiros assessores, gente fina, chamam de tit for tat. A cada passo que um dá, dos ousados, eles dão outro. Está até ficando previsível. Os rapazes que estudam isso fazem projeção, olham o que Jair pode fazer, e já elencam uma série de medidas que podem também tomar, para neutralizar. O careca Xandão é um deles. Esse foi surpresa. Nomeado por Temer, parecia encaminhado a concordar com tudo, nas finas. Mas o bicho se encrispou. Não sabemos por qual razão, ele passou para o outro lado. Ele inventou aquele show na posse, juntou tudo quanto é autoridade que pode segurar o movimento de Jair.
A conclusão é que não ficou tão fácil. De repente, gente que sempre topou tudo, arranjou desculpa, os que diziam que a situação tinha ficado insuportável, era necessária medida forte para conter os comunistas. Até a Globo, malditos. Pode ter sido imprudente Jair ameaçar tanto os Marinhos, dizendo que não ia prorrogar a concessão das televisões deles.
O que também assustou foram umas cartas, veja só, cartas, dos empresários, dos banqueiros, que desceram do muro tão confortável pra sinalizar desaprovação, passaram um pito nos promotores do golpe.
Mas é bom esclarecer. Tudo o que eles fizeram foi para inibir, segurar, impedir um movimento patriótico para estender o mandato de Jair por, sei lá, bota quatro meses nisso, pode ser mais, de acordo com as circunstâncias.
Nada disso seria grave demais, daria para contornar. Mas aí vieram as pesquisas. Mostraram que o sapo barbudo, o nove dedos, está subindo, fica lá em cima e não desse. O tempo vai passando, Jair ou não sai do lugar ou até desce. Os demais, que poderiam ajudar e esvaziar o balão do Lula, desviar votos, não sobem.
A coisa chegou no ponto do "ou dá ou desce". Se não fizer agora, na semana que vem, no dia sete, essa oportunidade pode passar, Jair teria que enfiar a viola no saco, ir pra casa, os generais nem para os quartéis iriam, eles já são reformados, têm que vestir pijama, a Michelle teria que fazer as malas, providenciar a mudança do Alvorada, vai ficar com saudades.
Tem gente que diz saber o que vai acontecer. Fingem. Eles não sabem. Nem o próprio Jair decidiu o que fazer. Está confuso. Conta quantos comandantes das polícias nos estados poderiam apoiar com certeza, as guarnições do Exército, a Marinha e a força aérea não mandam nada. Nada se pode esperar deles. Podem não ser suficientes. Eles já deram declaração de respeito à lei, à Constituição. Mas isso vale tanto quanto uma nota de três reais. Nada. Esse pessoal fala qualquer coisa. Depois diz que as circunstância mudaram.
Então, as coisas estão nesse pé. Muita gente já está vestida para o evento. Pode ser pra desfilar, sorrindo. Pode ser pra meter o pé na mesa, virar, dar uns tiros, Fazer cara feia e esperar que pensem melhor, façam meia volta e rumem para casa.
Nada garantido. Tudo pode acontecer. Pode ser nada. Estamos em compasso de espera.

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