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Urgências e Importâncias (por Roberto Garcia)


O que é importante? O que é ainda mais importante? Qual é o tema, quais são os temas que devem concentrar suas atenções, dominar seu raciocínio, fazer sua cabeça, hoje, neste momento? O Henry Kissinger, que por uns tempos dominou a política externa americana, dizia quando era Secretário de Estado, uma espécie de Ministro das Relações Exteriores, que o urgente tomava a frente do importante. Isso era para dizer que tinha coisa sempre pipocando na mesa dele, no sétimo andar do prédio da rua C, que assoberbava todas as outras, que exigia decisão, ação.
É claro que o importante depende da cabeça da gente. O que somos -- pai, mãe, pipoqueiro, encanador, bombeiro, gerente, administrador de empresa, líder sindical, artista, político, amante -- determina o que fazemos. Tem gente, quase todos nós, acumulamos várias dessas funções. Cada uma delas exige nossa atenção, empenho, carinho, trabalho. Quantas vezes deixamos as exigências da família para cuidar do emprego? Faz sentido repetir a frase famosa "quero que você me aqueça neste inverno e que tudo o mais vá pro inferno"? Isso é frase de moleque ou é a essência, o que realmente vale?
Basta olhar para as manchetes de jornal. O Washington Post, o New York Times, americanos, o Global Times, da China, o RT, da Rússia, o Estadão, a Folha, o 247, o blog da minha amiga, todos eles mandam e-mail para a minha caixa postal, de madrugada, dizendo o que devo olhar e pensar, ao acordar. Aqueles itens, dizem eles, são os mais importantes no mundo. Mas às vezes o que eu olho é o concerto da Sinfonia de Berlim, as vozes suaves da National Public Radio, o blog de arquitetura, o zap da minha filha, em Zurique, preocupada com a fanfarronice das empresas de vacina, com o reset do poder mundial do Schwab, do World Economic Forum.
Quando levanto, a prioridade é a ração das minhas gatas, a Esmeralda, a Stella, da cachorra Ling Ling. Tem sempre a conta atrasada, que não tenho dinheiro pra pagar, a lentidão da linha de Internet de satélite, cara mas que nem sempre funciona. Aqui no mato, tem a chuva que não pára, a mangueira de água que estoura, a eletricidade que não funciona na hora essencial, no meio do banho, o frio da capeta. Tem o rugido dos macacos, de algum bicho no mato, a sinfonia dos sapos, que emociona. Ah, e as fotos do telescópio, que mostram as galáxias, girando ao longe, impassíveis aos probleminhas humanos, tão desimportantes.
Por que é que um octogenário, com um pé na cova, deve pensar no besteirol do Jair Messias, na prepotência do Joe Biden, no desmatamento da Amazônia ou aqui da Mata Atlântica. Se não controlo nada disso, por que devo me preocupar?
Sim, eu sei, devo. Recebi tanto de graça nesta vida, está na hora de dizer o que aprendi, devolver pelo menos um pouco, mostrar que nem sempre o que dizem que é importante realmente é. O resultado do jogo de futebol não tem a menor importância, me desculpem. Por que dar atenção às maluquices do pastor, do padre, do rabino, do monge? O velho compositor de samba, da favela, sabia mais e dizia tudo com melhor poesia.
Vamos entregar de mão beijada este nosso país ao genocida? Deixar que o Carluxo determine a pauta? Ou que meus coleguinhas
deslumbrados continuem a dizer que o Moro tinha razão? A enganação do neoliberalismo vai continuar por quanto tempo? Permitir que esse pessoal faça a cabeça do nosso povo? Calar nesta hora delicada para advertir contra o messianismo?
Afinal, o que é importante, agora? Sabemos um pouco. Há escolha a fazer. Entre o pior e o melhor, nada perfeito. Mas temos que dar um passo. Não vai resolver tudo, mas pode impedir desgraça maior. Vamos jogar a nossa bola, para a frente. E torcer.

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