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2023 Parte III – Pra Começo de Conversa (por frega Jr)

 

O Projeto de Lei Orçamentária para 2023, encaminhado pelo Executivo ao Congresso, dá a idéia da dimensão do caos programado para 2023.

O Brasil de 2023 é um Brasil mais carente do que o de anos anteriores. Foram sete anos de destruição. Os primeiros três na tal Ponte para o Futuro, a guinada neoliberal ponto de partida para a demolição nacional. Nos quatro últimos, os marechais neoliberais valeram-se da caneta de seu fantoche em duas direções aparentemente opostas, porém afins e complementares na essência.
A primeira vertente foi sancionar e regulamentar o maior pacote de benefícios em causa própria jamais vistos. Nem a ditadura de 64 teve tamanho despudor e cara de pau. Nossos ínclitos marchais colocaram em prática o princípio do meu pirão primeiro. E em segundo e em terceiro.
A segunda, após garantir a si a ampliação da rede de proteção específica que lhes beneficiava, foi mutilar toda a rede de proteção social de suporte ao restante da população. A destruição somente não foi maior em razão da pandemia.
A tragédia humana de mais de meio milhão de mortos pela doença, além dos que ficaram com sequelas de maior ou menor gravidade, impediu que o Sistema Único de Saúde – SUS, fosse demolido e que o sistema público de ensino fosse substituído por voucher num primeiro momento e sua extinção até 2022.
Também as universidades públicas foram poupadas do rolo compressor neoliberal.

O projeto de lei orçamentária encaminhada ao Congresso, no entanto, traz em si a retomada dos conceitos neoliberais. Os cortes em programas sociais sinalizam, pra valer, no seu fim, mas agora com o firme propósito não mais de impor um programa neoliberal, mas de armadilhar o terreno para o próximo governo, provavelmente com visão oposta ao ideário econômico privatista e liberalizante. Com a vantagem de, caso ocorra a improvável reeleição, o caminho estará asfaltado para sua implementação.
Uma proposta com dupla intenção. Ou asfaltar o caminho para a conclusão da agenda neoliberal pinochetista em caso de vitória, ou dificultar sobremaneira a vida do novo governante, em caso de derrota. Pode-se até inferir analogia a planejamentos militares em caso de retrações e retiradas.

Em que consistem essas armadilhas?
De certa forma, repete-se o modelo dos países que tiveram destruída sua economia social e, pela impopularidade decorrente, elegeram governos de centro-esquerda. Esses governos elegeram-se com expectativas superavaliadas pela população, que sentiu-se frustrada por não haver correções imediatistas a problemas estruturais criados exatamente pelos governos antecedentes substituídos.
E passaram a sofrer queda vertiginosa na popularidade e levar a culpa da situação.
É necessário quebrar esse ciclo.

Os cortes foram assustadores.
No Minha Casa Minha Vida, rebatizado e mutilado pelo tal de Casa Verde Amarela, foi de 95% sobre os valores de 2022, que já haviam sido reduzidos.
No Farmácia Popular, que supre com remédios de uso contínuo contra doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e antitumorais, o corte foi de 60%.
Educação, Ciência e Tecnologia, praticamente todos os setores tiveram seus recursos mutilados, co0m exceção ao da Defesa.
Em relação a investimentos, a proposta contempla o menor nível dos últimos vinte anos (R$ 24 bi) e, a parte relativa à infraestrutura (R$4,7bi), nem sequer é suficiente para a manutenção do existente.
Em compensação, o orçamento secreto contempla cerca de R$ 19bi.
A ausência de programas sociais e de investimentos apenas repete o mesmo modelo atual. Em nada ataca estruturalmente a miséria, o desemprego, a desassistência.

Além disso, outras armadilhas há:
O fim dos auxílios eleitoreiros concedidos a termo, até 31 de dezembro, tais como o complemento do Auxílio Brasil e aos caminhoneiros e taxistas.
O fim do tabelamento possivelmente do ICMS sobre combustíveis. Ainda que o STF não tenha tratado do assunto em momento pré-eleitoral, como aliás seria desejo dos marechais para criar antagonismo popular à Corte,, esse assunto será pautado e, possivelmente,  sentenciado como inconstitucional mesmo pelo impacto nos demais entes federativos.
O calote criativo aplicado aos precatórios com pretexto de não violar o teto de gastos para prorrogação do auxílio emergencial, começará a se refletir em pagamentos também em 2023.
Em termos fiscais, portanto, 2023 nasce com desafios gigantescos e com o estouro da barragem do represamento inflacionário no segundo semestre de 2022, com objetivos claramente eleitoreiros.
O novo governo começará a ser cobrado no dia seguinte de sua posse. Se for uma continuidade, lá os marechais têm palavra a manter? Determinam que manifestações sejam reprimidas e ponto final.
Se for Lula, aí a conversa é outra. Precisará apresentar medidas já no dia 02/jan. No que depender do Congresso, já negociar previamente, pois os novos eleitos tomarão posse somente no dia 10 de fevereiro. Uma das razões fundamentais para que a eleição seja definida já no 10 turno. Menos armadilhas e mais tempo para negociação prévia de transição.

Essa situação somente começará a ser revertida com fortes e cirurgicamente escolhidos programas de fomento da atividade econômica e demandantes inclusive de mão de obra não qualificada ou semiqualificada, hoje à margem do mercado formal de trabalho.
Mas como fazer isso com o orçamento engessado, com tetos de gastos rígidos e com demandas de ações de governo muito superiores à capacidade de atendimento?
A equipe de governo terá que descobrir, mas talvez não haja outro caminho além de investir fortemente em obras.
Sem orçamento?
Pois é. Aí a sinuca de bico. Ações heterodoxas, que não impliquem em ilegalidades, porém que possam dar partida à retomada econômica, ao emprego e melhoria da base salarial, que possibilite o aumento do consumo interno e consequente produção.
E que reinsiram o Brasil como parte confiável na comunidade das nações. Usar a defesa do meio ambiente nos estritos termos do Código Florestal em vigor, sendo intransigente em sua aplicação, para abrir portas e diálogos. Precisaremos de investimentos e capitais de risco.

Tais como alguns palpites:

1.       Retornar aos conceitos do Bolsa Família, que considerava a composição familiar e as condições acessórias, como vacinação e frequência escolar.

2.       Concentração dos recursos federais na Caixa Econômica, empresa pública, para evitar eventuais questionamentos de acionistas minoritários do Banco do Brasil.

3.       Concentração de todas operações imobiliárias com recursos públicos ou de fundos como o FAT e FGTS, em operações próprias ou conveniadas com as demais instituições bancárias, de forma a que essas operações possam suportar, total ou parcialmente, os subsídios cruzados para o retorno do Minha Casa Minha Vida em equilíbrio orçamentário e fiscal, abandonando as premissas do atual Casa Verde Amarela. Incentivar o Sistema S e entidades empresariais nesse esforço.

4.       Recompor de imediato, com verbas do orçamento secreto, os recursos para os programas de assistência social diretos, como Farmácia Popular por exemplo.

5.       Abrir linha de crédito similar ao Finame para a aquisição de equipamentos e insumos para construção civil. Abrir linha de financiamento imobiliário a incorporadores imobiliários interessados, mantidas exigências ambientais e garantias reais.

6.       Retomar o projeto de duplicação de troncos rodoviários federais com liberação de recursos do BNDES para as obras. Se necessário, capitalizar o BNDES com o lançamento de títulos de longo prazo o mercado internacional.

7.       Retomar de imediato a política de estoques reguladores, vinculando o crédito rural a contratos futuros, que tanto possam ser resolvidos em numerário como em produtos, à decisão discricionária do Min. da Agricultura. Incentivo à agricultura familiar, com programas de aquisição dirigida.

8.       Criar empresa pública com bloqueio constitucional (PEC) para manutenção de capital 100% público (federal, estadual e municipal), para atuação no segmento petroquímico.
O capital social seria integralizado pela transferência da propriedade de todas as jazidas petrolíferas disponíveis, conhecidas e futuras e de todos os direitos remanescentes à União nos contratos de concessão já firmados.

9.       Desenvolver junto ao BNDES um programa de aquisição de controle acionário, por aquele Banco de refinarias e indústrias petroquímicas.

10.   Todo o petróleo extraído nas jazidas da nova empresa seria processado nas refinarias controladas pelo BNDES, com o petróleo fornecido sem considerar a paridade internacional. Os derivados seriam ofertados ao público também desconsiderando a paridade internacional.

11.   O desinteresse dos acionistas da atual Petrobrás provocaria uma queda na cotação das ações, o que poderia ensejar a aquisição pela própria empresa.

12.   Da mesma forma as refinarias privatizadas, que teriam dificuldade de competir em preços de derivados no mercado interno. O eventual desinteresse nas operações poderia facilitar sua recompra.

13.   Taxar a exportação de petróleo bruto e derivados, revendo a isenção tributária concedida no governo Temer. Utilizar esses recursos para subsidiar o mercado interno enquanto a nova empresa não se torna operacional.

Os itens de 1 a 7 impactam diretamente no emprego, no acesso à renda, à alimentação e no fazer a máquina começar a girar. São emergenciais.
Os itens de 8 a 13 são estruturantes, com resultados em médio/longo prazo.

São viáveis? Factíveis? Não sei, talvez até nem sejam. Porém alguma coisa precisará ser feita com urgência. A carência não é longa e a paciência, essa sem dúvida é curta. Um grande programa de impacto é necessário, mais do mesmo só levará ao desânimo. Há forças até antagônicas a serem enfrentadas. Os recursos iniciais podem e devem sair do tal orçamento secreto. Será fácil abrirem mão?
Não, não será mesmo. Mas a caneta presidencial tem poder, muita negociação e composição serão necessárias.
Cenário difícil, quase trágico.
Mas é o que temos pra começo de conversa.
 

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