Creio que o último texto que escrevi e postei relacionado a uma data histórica foi sobre a Revolução Constitucionalista, em 9 de julho. O objetivo daquele texto era o de desconstruir estereótipos e apresentar uma leitura não parcial - se é que isso seja possível) - daquele evento histórico, pois este é o ofício do historiador.
Hoje escrevo sobre o 7 de setembro de 1822. Data saudada e largamente comemorada desde 1899, mas especialmente nos idos da malfadada ditadura militar. A Independência nos foi vendida como uma das mais importantes datas cívicas do país. Balela! Forjou-se um caráter heroico à data e ao seu maior protagonista, Pedro de Alcântara, coroado como D. Pedro I, no Brasil.
Após a Revolução do Porto, D. João VI sofreu pressão popular do clero, da nobreza e da burguesia portuguesa e em 1821 decidiu retornar à metrópole depois de cerca de treze anos no Rio de Janeiro, pois temia perder o trono português. Deixou no Brasil seu filho, Pedro de Alcântara, como príncipe regente com objetivo de garantir o poder da Família Real também por estas bandas.
Em Portugal, as Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa já iniciavam a elaboração da Constituição do Reino. Mas esta decisão régia foi mal recebida no Brasil. A burguesia brasileira, em sua maior parte composta por comerciantes de origem portuguesa, temia pela recolonização do Reino Unido e pressionou o príncipe regente a uma decisão mais radical. As elites de cá provocavam o descontentamento popular pressionando o príncipe Pedro de Alcântara.
D. João VI já havia orientado o filho, em trocas de correspondências, para que, caso houvesse necessidade, rompesse oficialmente os laços com Portugal, pois desta forma manteria o poder em mãos da Família Real. José Bonifácio de Andrada e Silva também aconselhara ao príncipe regente para que este fizesse as mudanças antes que o próprio povo as realizasse.
No dia 7 de setembro, quando Pedro de Alcântara subia a Serra do Mar, depois de uma visita de reconhecimento às fortificações de Santos, recebeu próximo ao córrego do Ipiranga uma carta levada por Paulo Bregaro que indicava a necessidade de se romper definitivamente os laços com Portugal. Assim foi feito. Não houve ato de heroísmo, só interesse político e econômico.
A maior parte dos países latinoamericanos recusaram-se a reconhecer a "Independência" do Brasil, pois havia se instalado cá uma monarquia cujo maior líder era português e pertencente à Família Real portuguesa. Contudo, foi firmado um acordo entre Brasil e Portugal no qual se reconheceu uma dívida de 2 milhões de libras esterlinas como indenização pelo rompimento dos laços.
Portanto, a bendita Independência não passa de uma grande balela. O heroicismo que permeia este evento foi forjado para a manipulação e alienação do povo brasileiro. Foi mais uma das mudanças que nada mudou para os mais ricos. Manteve-se o status quo e o povo, de maioria miserável ou escravizada, continuou em sua condição. A elite continuou sendo elite e a enorme dívida contraída junto a Portugal foi paga pela população mais pobre e por intermédio da exploração da mão de obra do escravizado.
Após a Proclamação da República - outra mudança que nada mudou - os militares e as elites políticas forjaram heróis nacionais para fazer brotar no povo o desditoso e equivocado civismo. Ressuscitaram a figura de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, sob o figurino do mártir, tanto é que construíram sua imagem a semelhança de um Cristo, o que não seria possível considerando que era um alferes à época. Conceberam a bandeira e venderam o respeito a estes símbolos como conceito de civismo.
As artes plásticas também refletiram esta construção heroicizada de cenas históricas. O paraibano Pedro Américo pintou "O Grito" no final do século XIX. Esta tela está no Museu Paulista (conhecido como Museu do Ipiranga) e apresenta uma série de equívocos sob a ótica da história. Contudo, não há como se negar seu valor artístico.
Lembro-me de minha infância, nos tempos da nefasta ditadura, das comemorações sobre esta balela cívica que é a Independência do Brasil. Desfile militares, EXPOEX. Incrível os militares falarem em civismo, pois entendo que civismo não é entoar o hino ou saudar a bandeira, ferramentas das elites econômicas e políticas para alienar e manipular o povo.
Civismo é respeitar ao próximo, inclusive o direito dele se manifestar ainda que contra as suas ideias e ideais.
Civismo é conduzir os destinos políticos do país na direção da justiça social e igualdade de oportunidades. Civismo é abrir mão de algumas vantagens em prol daqueles que não têm vantagem nenhuma.
Civismo é ter, antes de tudo, um olhar humanitário para a vida.


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