O golpe militar republicano de 1889, a par das traições abjetas, da ingratidão cínica, da desorganização nacional e do afloramento dos piores instintos de selvageria e desrespeito, trouxe um avanço essencial. Aboliu a figura da religião oficial, a promiscuidade entre valores públicos e privados. Foi um passo civilizatório, sem qualquer sombra de dúvida, especialmente se comparado com alguns países que ainda hoje colocam os princípios religiosos como balizamento político.
Mais comum atualmente em países com maioria islâmica. Radicais em maior ou
menor escala, convivendo com tribunais religiosos a par dos civis. Uma
barafunda opressora a minorias.
Não diferente das práticas cristãs da Idade Média histórica e até da Moderna,
fechada com a Revolução Francesa representando a primeira grande segregação
entre Estado e Igreja.
Não estamos na treva atual por acaso, disso tenham certeza.
Embora a Constituição de 1891 tenha abolido o Estado Confessional, chegando a ponto de retirar dos currículos escolares o ensino religioso, isso não significou o fim da influência da religião na política. Em momento algum da jornada humana na Terra a religião deixou de ser instrumento de dominação. Ou de instrumento de poder temporal. É fato perceptível ser a carolice endêmica em todas as regiões colonizadas.
Ex-colônias foram submetidas mais fortemente ao domínio religioso como instrumento para submissão, conformismo, medo e até pura e simples punição. Nem os Estados Unidos, uma das primeiras colônias a se tornar independente, escapou dessa sina. Poucos países têm a religião tão entranhada no cotidiano da sociedade como lá.
O Talibanistão Tupiniquim
mostra sua cara. Nem vou entrar no mérito se bonita ou feia, pra mim
horrorosa.
Mas olhem que interessante. Os que se dizem ateus ou sem religião formam um
contingente de 15% da população. Sobram, portanto, 85% com alguma religião.
Desses, sessenta pontos percentuais, ou mais de 70% do segmento que declara
professar alguma religião, consideram mais importante a obediência a crenças
religiosas do que a própria gestão pública.
Trata-se da esmagadora maioria.
É aterrador, especialmente pelo fato de crença religiosa ser
individual, não há e nem pode haver consenso. Nem sequer o grande Papa
Francisco, um humanista líder de uma gigantesca corporação hierarquizada,
partilha os mesmos valores com todos seus liderados. Há dissidências. Até seu
antecessor possui visões diferentes para as práticas cristãs. Os rótulos
religiosos são os mesmos, as práticas não.
Um dos valores cristãos é o respeito à vida. Alguém nega isso?
Uma das práticas de grupos cristãos é fazer arminha com o dedo para sinalizar
seu dedo nervoso em
Um dos valores cristãos é o amor ao próximo.
Uma das práticas de grupos cristãs é discriminar o próximo por homofobia.
Como negar esse conflito?
Confesso, fiquei aterrorizado com a perspectiva de estarmos
caminhando celeremente para um Brasil movido pela religião. Um Brasil intolerante
com a diversidade, um Brasil de marchas-para-Jesus, mas de fato no caminho do inferno
social.
Um Brasil de Malafaias ao pastor semianalfabeto da esquina. Vociferantes,
ignorantes, fundamentalistas.
Retratos de um Brasil tóxico.
Quero não!



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