Há certos momentos na história em que uma nação dá um tiro no pé. Mergulha de ponta cabeça em piscina vazia. Tenta fazer de novo, esperando bom resultado, algo que acaba de produzir desastre. Escolhe líder tresloucado. Busca sucessor e elege alguém ainda pior. Tem olhos mas se comporta como cega. Parece que não tem conserto.
No Reino Unido, aquele grupo de ilhas que antigamente chamávamos de Inglaterra, o Partido Conservador, que é o maior, acaba de selecionar uma idiota para liderá-lo. É a Liz Truss, que até agora era a ministra das relações exteriores. Ela vai virar a primeira-ministra, assumir no lugar do descabelado Boris Johnson. Ele tinha escolhido um método interessante para governar: fazia o contrário do que a prudência recomendava. Achava que se fizesse um brilhareco atrás do outro ia surpreender a moçada, se manter na liderança. Conseguiu enganar por algum tempo. Durou pouco, mas fez muito estrago. Separou o país da União Europeia. Ajudou a provocar uma guerra. Enterrou a economia num buraco. Piorou a vida do povo. Truss vai no mesmo caminho. Chamam isso de progresso.
Para começar, a representatividade dela é questionável. Foi eleita pelos membros do partido que pagam mensalidade, cerca de 144 mil pessoas, ao todo. Seu opositor, o encarregado das finanças, Rish Sunak, era mais popular com os demais membros, maioria, que não pagam mensalidade. Truss fala pela minoria mais rica dos conservadores. O líder do outro partido importante, o Trabalhista, é ainda mais popular. Num país de 67 milhões de pessoas, as decisões são tomadas por menos de 150 mil, que são mais organizados e tem mais grana. As pesquisas demonstram que a maior parte dos bretões acham que a nova primeira-ministra vai ser “muito ruim”. Mas a maioria não importa. A democracia deles é assim.
Tem nuvens escuras no futuro, já a curto prazo. O Brexit -- a saída da União Europeia -- desorganizou a economia, reduziu o crescimento. A inflação passa dos 10 por cento e tudo indica que vai aumentar, o custo de vida aumentou. As greves paralisam vários setores da indústria, trens estão parados, o lixo não é recolhido, os portos ora funcionam, ora não. A guerra da Ucrânia está se revelando muito mais cara, longa, do que inicialmente se esperava. A recessão já deve começar em outubro, mês que vem.
O Reino Unido já foi império mundial. Encolheu. Está mais para país emergente, com fluxos de suprimento que não casam com as necessidades, barreiras crescentes no comércio, setor financeiro -- que já foi líder -- mais atrasado, com menor capacidade de concorrer com os alemães, os americanos e muito menos ainda com os chineses.
A campanha dela fez promessa de redução dos impostos, extração de combustível do xisto e da energia nuclear. Só não disse de onde vai tirar dinheiro para os investimentos necessários. Essa conversa entusiasmou os mais ricos, que deliram quando ouvem falar de cortar os impostos deles, mas não convenceu a maioria da população. Mas essa maioria não importa, os mesmos reacionários que por 12 anos governam o país tem receitas cansadas e o bolo deles não cresceu.
O sucesso de Liz Truss se deve à sua flexibilidade. Ela muda de posição quando sente os ventos mudando. Já quis acabar com a monarquia, agora adora a rainha. Votou contra o Brexit e agora é ardorosa defensora da separação do resto da Europa. Já foi da esquerda mas escorregou, agarrou-se à direita. A piada repetida com frequência é que ela não acredita em nada ou que acredita piamente naquilo que diz num determinado momento, que não dura. Começa a ser chamada de camaleão. O que importa para ela é o poder, não importa a cor.
Diz-se agora que ela tem saudades da Margareth Thatcher e do Ronald Reagan. Quer projetar uma imagem de força mas só conta com apoio dos muito ricos. Num mundo em que a guerra da Ucrânia desarranja as economias, ela não tem bala na agulha. O preço da energia, neste inverno que se aproxima, deve aumentar 80 por cento. Os custos da saúde também devem dobrar. Noventa e nove por cento da população não acreditam que cortar impostos dos ricos ela possa fazer a economia decolar. Nem os jornais conservadores põem fé nela. Seu governo deve ser curto. O país anda parecendo com a Bolívia antiga, troca de governo toda hora. Os ingleses estão sentindo frio.

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