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É possível união estável entre a farda e o traje civil? (por Maria Rita Cáceres)

É possível união estável entre a farda e o traje civil ? Diria que sim, desde que houvesse vontade política e coragem para caminhar sobre este terreno pantanoso e minado, tendo em mãos um mapa esmaecido da nossa trajetória histórica , particularmente do período republicano e a vontade de construir, de forma consistente, um país mais justo e democrático. Há graves problemas nas duas partes desta relação, mas hoje o perigo maior vem das FFAA que, exorbitando do seu papel constitucional, querem controlar o modelo do traje que o civil quer vestir para viver e passear, em grupo.
Neste momento, então, nosso grito mais forte e corajoso deve estar dirigido à farda, mas é bom que todos escutem porque há muito civil protegendo-se de suas pilantragens, atrás da farda. Devíamos adotar como slogan de campanha eleitoral e bordão, em defesa da cidadania:
Forças Armadas, controlem as armas, não as urnas !
Controlem as fronteiras, não o território nacional, para isso há forças de segurança internas !
Controlem invasores externos, não o povo. O meu temor não é a "inutilidade" perigosa das FFAA, pelo quadro que estamos vendo e sim a sua utilidade ilegal e perigosa.
Acho difícil, quase impossível, um país continental como o Brasil, sem Forças Armadas, com nível de especialização próximo do ideal e número adequado, mas quando há a distorção do papel constitucional, os princípios que são virtuosos: hierarquia e disciplina se tornam perigosos. Mas também é perigoso trazer para a vida civil o princípio da hierarquia e da disciplina . É matar a cidadania, pois ela tem que se basear em direitos e deveres iguais e no respeito ao contrato social firmado.
O papel das FFAA, em nossa história republicana e o caráter senhorial de nossa sociedade nos levaram a terrenos pantanosos que devem ser drenados pelo debate, tanto com relação aos militares, quanto aos civis. Trabalhando em escolas públicas, por toda a minha vida profissional, também pude perceber como o conceito de autoridade e de competências inerentes a um cargo são muitas vezes contaminados pela concepção militarista e visão senhorial, por longo período assentada nas relações escravistas, em que a idéia dominante é o cumpram-se ordens e não cumpram-se responsabilidades, sendo o gestor que respeita os princípios da administração pública visto como fraco e não como servidor exemplar. Há, muito enraizado ainda, a visão supremacista do "sabe com quem está falando"? Se não sabe, vou te ensinar. O mesmo com relação ao conceito de disciplina, disciplina não é abaixar a cabeça, é levantar ou abaixar os olhos para olhar o interlocutor e com base na relação direitos/deveres e, na sua responsabilidade pessoal e social, exercer os seus papéis e viver a vida, de acordo com os seus valores. Eu sinto muita tristeza e indignação ao ver nossa Constituição sendo destruída. O avanço na qualidade dos serviços prestados e no respeito aos cidadãos foram imensos, onde os princípios da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da publicidade e da eficiência foram incorporados pelos servidores e população. O sigilo na utilização rotineira de recursos públicos é um pontapé nos princípios democráticos e a forma mais hipócrita de legalização da corrupção. Um outro Brasil pode ser construído, sem que a farda e o traje civil se estranhem. Lutemos por ele! Obs.: Sobre o assunto ver também https://blogdopensamentocritico.blogspot.com/2022/09/controlem-as-armas-nao-as-urnas-por.html

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