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Dona Santa e os Ódios Profanos (por Roberto Garcia)

 

Fui comprar leite para as minhas gatas na Santa, minha vizinha mais próxima. Ela, com seu marido, Miguel, tem dez vacas num pequeno sítio, perdido numa estrada que liga nada com o mais nada ainda. As cercanias da Mata Atlântica têm disso. 

Um pessoal que vive com pouco, onde todo mundo é parente, próximo ou remoto, com gente fina, pessoas simples, mas também tem ladrão, assassino, fanáticos fiéis de religiões sem muito sentido -- qual tem? --, liderados por pastores que gostam de grana e poder. Os padres não vão lá, faz tempo, mas um dos maiores prédios da vila é uma igreja católica pintada com cal por adoradores de fé inabalável. 

Fiquei surpreso. A pequena varanda onde fica o velho congelador de Dona Santa estava adornado com adesivos do Jair. Muitos. Ela explicou que com seu celular ligado à Skygato -- uma malandragem que permite pegar tudo sem pagar nada -- acompanha entusiasmada as redes sociais e os sites mais radicais da extrema-direita. Ela acredita piamente em tudo o que vê. 

A bronca que a Dona Santa tinha hoje a ver com a notícia de que o Lula, presidiário e culpado, quer acabar com o pessoal do agro, roubar as vacas do casal e, pior ainda, ensinar as crianças das escolas a serem lésbicas e gays. Se o ex-presidente ganhar a eleição, os pobres aqui do mato vão perder tudo, o comunismo vai imperar, vai ter guerra e o mundo vai acabar. Santa acredita e diz isso a todos os que quiserem ouvir. 

O gabinete do ódio do vereador carioca Carluxo, filho gordinho do Jair, está funcionando a todo vapor. Faz a cabeça de gente lá nos confins do Judas. A Santa é uma delas. Está convencida, com medo e com raiva dos petistas, bando de picaretas, aliados aos presidiários, liderados pelo Zé Dirceu. 

Ela fala essas coisas sem respirar, fatos e nomes dos inimigos do Brasil. Tudo fajuto. Santa é inteligente, sabe mexer no celular. Administra as finanças da família. Entra nos sites que um parente indica pra ela, não checa, mesmo que soubesse fazer isso não seria necessário, ela tem a verdade revelada, vem tudo num pacote só, Deus, pátria, família, o pequeno sítio, as vacas, muitas certezas. Isso é o mundo dela. Nada vai demovê-la dessas crenças.  Seu Miguel, o marido, não entende, mas acredita. Aquela casa é moderna, quem manda é a mulher. 

Nesse mundo da Santa não tem diálogo. Eu quero o leite das vacas dela, os ovos das galinhas, vez ou outra quero o queijo fresco também. Melhor não discutir. Pra começar, ela não ouve, não admite contestação. É isso ou isso. Tem os filhos, que são meio violentos. Nas festas juninas que ela faz com um fogueirão no pasto, quase sempre tem briga deles com os convidados. Nunca fui nem pretendo ir lá. Mas sei da fama das festas. São doces mas, quando exaltados, o pau quebra, prato gira no ar, copos às dúzias vão pro vinagre. A polícia não vai porque nunca vai nesses lugares. As coisas se resolvem entre eles. Quando a aguardente que foi administrada no sangue se dissolve, desce pela urina, ficam em paz, volta a amizade. Foi sempre assim. 

Nesse caso, em muitos semelhantes, o importante é que as mensagens do gordinho chegaram, moram fundo, pelo menos neste fim de mês vão dominar as decisões. Vão votar no Jair, dizem que não há opção. 

Num dia, sabe lá quando, ela e os amigos podem ver melhor. As circunstâncias mudam. Se o Lula ganha, faz algo que torna a vida deles melhor, é possível que mudem também.
Faltam sites de esquerda, isso é o futuro das comunicações, não apenas um, mas mil. Vão ter que ser custeados pelo número de assinantes, se cada um tiver um milhão -- possível num pais de mais de duzentos milhões -- o site ganha um milhão de reais, pode pagar jornalistas, técnicos em tecnologia de informações, pesquisadores, funcionar em várias plataformas das mídias sociais. 

Além disso, temos que moldar melhor as linguagem. Nem sempre falamos do jeito que eles gostam ou que entendem. Tem que ser no nível de escola primária, onde o universo de palavras não passa muito de mil. Os temas precisam ser abordados levando em conta o que o mundo deles. O Paulo Freire tinha razão. Temos mais que aprender com eles do que eles conosco. Tem que haver diálogo, respeito. Nada de chamar de boiada os que estão do outro lado. Eles simplesmente, têm outra posição, neste momento particular. Podem mudar de opinião. Compete a nós ajudar e não criticar, achando que vai ser sempre assim. 

Desta vez, vamos ter que ganhar sem a Dona Santa. Tomara que haja outros mais receptivos, que saibam que essa tal de democracia é importante. Que é melhor ter livros do que armas. Que ninguém faz tudo sozinho. Pra melhorar este país muitos vão ter que ajudar. Isso é para muita gente. Nada de ditadura do proletariado. Olhe o que deu a União Soviética.

Pode mudar, sim, melhorar muito. Mas não pra amanhã ou depois. Vai demorar bastante, é um processo longo. Mas se não começar agora, nunca vai acontecer.

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