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Não Vai Ser Fácil (por Roberto Garcia)

Lembro distintamente. O entusiasmo que tomou conta de tanta gente. Eu estava em Washington quando vieram as notícias da prisão do Gorbachov por militares rebelados. Nos dias seguintes ele ficou livre mas não conseguia conter a dissolução da União Soviética. Ninguém entendia como o império comunista desmoronava. As nações do bloco socialista se desgarravam. A partir de um certo momento, o poderoso Gorbachov já era. Logo depois, Yeltsin subia. O pessoal da CIA, que circulava abertamente entre os jornalistas confessava sem constrangimento que também estava surpreso. Confirmava o que suspeitávamos. Eles fingiam mais do que sabiam.
Mas a impressão que se generalizou, que todos passavam, virou convicção, artigo de fé, era que o comunismo fracassara, o capitalismo vencera. Era o fim da história, um novo capítulo se abria.
Eu pouco entendia o que se passava, não conseguia engolir a versão predominante. Ouvia, relatava mas ficava com um pé atrás. Matutava, conversava, meus colegas russos, os poloneses, húngaros, estavam boquiabertos.
A máquina de propaganda americana funcionava a todo vapor. Mas eu conhecia todo mundo, tanto os chefões quanto os funcionários de sempre. Cuja função era dar brilho às versões que se espalhavam. Mentir era o requisito principal das funções deles. Eram especialistas. O princípio básico era convencer o mundo inteiro de que a versão do governo era a verdade.
Eu achava interessante como meus colegas no Brasil aceitavam tranquilamente a versão americana. Mas não adiantava me expor, contradizer a versão predominante.
Aqui no Brasil, o resultado de tudo isso foi o convencimento de que o neoliberalismo era o caminho. O mundo ficaria melhor se todos aceitassem logo, sem muito questionamento, esse óbvio ululante.
Os figurões do governo aceitavam e divulgavam a nova ideologia. Se tentasse dizer que não era bem assim recebia o carimbo: ultrapassado.
Uma nova indústria surgiu e floresceu. Alguns dos meus coleguinhas viraram promotores do neoliberalismo. Uns fizeram de graça.
Outros faturaram promoção, até grana, embora merreca. Passaram a ser convidados para falar em convenção de empresário
Era a glória súbita. Misturavam com patrão. Passaram a ser citados. Eram personalities. Socialites. Ninguém mais segurava.
Jornalista da escrita até então era anônimo, salvo um ou outro colunista social ou político. Mas os promotores do liberalismo ficaram influentes. Não demorou pra que chegasse convite pra trabalhar em banco de investimento. Muitos foram.
O tempo passou. A nova ideologia teve tempo de mostrar resultado. Todos veem. Não é grande coisa. Em alguns lugares, a fome acabou. As divisões aumentaram. Hoje ainda tem pobre com fome. E a classe dos milionários. Tem até bilionário.
Não sei se é bem isso o que esperavam. Mas vejo muita insatisfação. O meio ambiente piorou. O planeta está em perigo. Os bichos que restaram estão ameaçados. Podem não sobreviver a tanta modernidade. O capitalismo está decrépito. Os Estados Unidos podem resvalar para o autoritarismo. Quem se deu muito bem foi a China comunista. Na América Latina houve longo ciclo de ditaduras.
Poucos saíram do buraco. Tentam agora com democracia. Aqui no Brasil, há ainda alguma esperança. Nada garantido.
Aquelas certezas surgidas no fim da União Soviética nem sempre se confirmaram. As guerras quentes continuaram. Uma acaba mas logo começam outras.
Precisamos de novas esperanças e lideranças. O melhor que temos aqui é o velho batalhador Luís Inácio. Parece que ele emplaca, o que é bom. O perigo, contudo, é um novo messianismo. Ele não pode, sozinho, resolver tudo. O pessoal que o apoia com entusiasmo vai ter que continuar arregaçando as mangas, trabalhando. Não vai ser fácil.
Mas vai ser engraçado.

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