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Ótimo, Inimigo do Bom (por Roberto Garcia)

 

A lição veio na hora. Chocante. Deu susto. Os chilenos rejeitaram o projeto de constituição, que seria um dos mais modernos, consagraria direitos amplos, empurraria a nação pra frente. Dava inveja. Foi escrita para substituir a deixada pelo ditador Pinochet, de triste memória.

Você entendeu bem, não é engano. O povo rejeitou um documento melhor. Pelo menos, por enquanto, fica com uma constituição pior. O mesmo povo que elegeu, meses atrás, um governo avançado, democrático, que também tinha escolhido gente muito boa para a assembléia constituinte. Esse grupo tinha paridade, número igual de homens e mulheres. Os povos originais, os mapuches, tinham 15 dos seus lá. Havia conservadores lá. Mas a assembléia constituinte parecia representar todas os setores da sociedade. Nada disso funcionou.
Foi arrependimento da população? Alguma interferência de fake news? Culpa do imperialismo americano? Será que foi o gabinete do ódio do Carluxo quem provocou essa virada?
Improvável. Sempre um pouco disso é possível. Mas a razão principal foi a imprudência do pessoal democrático. Quiseram dar um passo maior do que a perna. Acharam que bastava elaborar um documento, cuidadosamente, muito concatenado. Mas o projeto de constituição atingiu muitos interesses. Juntos, criaram resistência, verdadeira barreira. O jovem presidente Boric, que patrocinou o texto do projeto, que o defendeu com entusiasmo, bateu com o nariz numa parede. Sofreu um revés sério. As forças progressistas do Chile empacaram.
Agora, em vez da Assembléia Constituinte, vai ser o Congresso quem vai fazer um novo texto. Vai ter que negociar mais, conciliar, fazer concessões. O documento será mais modesto. Sua aprovação vai requerer muito mais negociação. Não vai avançar tanto.
Em que medida isso é lição para o pessoal aqui, do Brasil? A resposta é simples: devagar com o andor. Sim, amigas, amigos, estamos cansados do que veio depois do golpe. Queremos nos livrar bem rapidamente do lixo autoritário que nos impuseram. Com razão, temos pressa, somos ambiciosos.
Tem alguém que já tinha percebido esse recado, antes de vir do Chile. O Luis Inácio, político experiente, sábio, tinha sacado. Viu que, se quiser andar depressa demais, tropeça. Põe em perigo os avanços que podem ser alcançados.
Tanto assim que atravessou a rua, foi buscar um parceiro muito mais conservador, do PSDB, para companheiro de chapa. O Geraldo Alckmin é exatamente isso. Mostra que Lula é moderado, não quer fazer revolução, quer dar passos deliberados, lentos sim, mas sempre para a frente. Isso não satisfaz nem enche de entusiasmo os que legitimamente acham que é preciso ir rápido.
O problema é que o Brasil é um país grande, imenso. Tem muita gente, com muitos interesses contraditórios. Pra fazer esse navio se mover, corrigir o curso, é preciso calcular muito bem, ir devagar, juntar mais apoios, onde for possível conseguir, negociar sempre, dissolver tanto quanto possível qualquer resistência. Ele não muda de direção de repente. Toma tempo. Com paciência, é possível conseguir. Se quiser dar saltos pode ter reversão.
Os países da América Latina onde eleições recentes levaram os democratas ao poder, estão enfrentando enormes dificuldades. Muitos deles estão em crise. Empacados. Esse incidente no Chile, que assustou todo mundo, é uma demonstração dos perigos que todos podemos enfrentar.
Muitos acham que isso é conversa de velho medroso. Dos conciliadores que acabam emperrando os avanços. Dos que servem melhor aos conservadores do que aos progressistas. Não é bem isso.
Bom botar as barbas de molho. Ir com cuidado. Dar passos bem pensados, deliberados, pra não ter reversão de repente. Em 11 de setembro de 1973, no Chile, o presidente Salvador Allende até que era cuidadoso. O pessoal que o cercava queria ir rápido. Os militares que ele próprio escolheu deram um golpe, prenderam meio mundo, instalaram um regime que suspendeu os avanços lentos, de muitas décadas. Doeu muito.
Nos vizinhos, Argentina, Uruguai, Bolívia, Equador, Peru, vários outros, houve um golpe atrás do outro. Tudo parado, andaram pra trás. Certamente, a potência maior lá de cima ajudou essas reversões. Mas seria erro grave colocar a culpa sempre nos de fora. Excesso de entusiasmo também atrapalha. Quem não entende isso tem surpresa. Machuca o nariz na parede. Não precisamos isso de novo. Podemos aprender com as lições do passado.

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