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Mágicas e Bruxarias (por Roberto Garcia)

 

Às vezes parece mágica. Que a lei da gravidade não existe. Que no mundo do capitalismo sempre vai dar certo. É inexorável. Dizem os mais ousados que isso também é a lei de Deus.
Foi o que pensou o andar de cima dos ingleses, que bastaria por mais uma fanática do neoliberalismo no cargo mais alto, de primeira-ministra, a Liz Truss, os lucros iam subir, furar o teto, que bastaria baixar imposto dos ricos, da alta classe média. as forças dinâmicas do mercado iam perder a inibição, investir como antigamente, a ilha que foi império mas tinha sido reduzida a quase pó nos últimos tempos ia ressurgir. Teria chegado a hora de voltar à gloria.
O sonho durou pouco. Até o pessoal do mercado financeiro, que supostamente iria se beneficiar dessa onda, desconfiou. É que as coisas agora não são como antigamente, trinta quarenta anos atrás, quando isso funcionava. A Margareth Thatcher fez isso, no mesmo Reino Unido. O Ronald Reagan também, nos Estados Unidos. A propaganda funcionava melhor. Muita gente lavou a égua, ganhou montanhas de dinheiro, muito embora o deficit tenha aumentado, criou uma cratera que ia até quase o outro lado do planeta, essa bola em que moramos. Era o tempo em que o comunismo, a União Soviética, estava se dissolvendo. Chegou a desaparecer. A competição entre as duas superpotências acabou, o capitalismo teria vencido, botado no lixo da historia todos os que diziam o contrário. Pois é.
Depois dessa conversa, começou a se descortinar uma nova realidade. Afinal, esse quadro era bom demais. Quer dizer, não era tanto assim. Os ricos realmente ficaram mais ricos. Mas eram proporcionalmente poucos. A imensa maioria ficou mais pobre. A prosperidade generalizada era fake news. Quarenta, cinquenta anos atrás, quando havia comunismo do outro lado, os sindicatos eram mais fortes, trabalhadores ganhavam mais. Hoje ganham menos, estão contando os tostões, a vida ficou mais cara, o dos trabalhadores não aumentou. Quem acreditou naquelas afirmações otimistas, de fim da história. levou no coco. Ficou um gosto amargo na boca, a realidade é cruel.
O problema maior, o que não pode ser escondido, está grande demais, é que o país com a maior população do mundo, sob a firme direção do partido comunista, cresceu mais, tirou mais gente da miséria, segundo vários critérios virou a maior potência econômica. Os ingleses ficaram na rabeira, continuam a ser uma ilha gelada, Os americanos se atrasaram, não fazem nada que presta, nas lojas americanas só tem coisa Made in China. Tem uma parte da história que não está sendo devidamente contada. Estão tentando tapar o sol com a peneira. Não funciona. Até os comunistas, socialistas, esquerdistas, que pareciam derrotados, humilhados, estão rindo. Quem ri por último ri melhor.
A Liz Truss, primeira-ministra, que começou com todo o gás, viu seu balão murchar. Percebendo que seus títulos da dívida do país iam perder valor, os grandes investidores, grandes bancos, gente de fora que inicialmente acreditou na balela dela, começou a vender, num estouro da boiada. O banco central de lá, o Bank of England, disse pelo seu presidente que podiam se acalmar, o banco ia comprar todo título que fosse colocado à venda, ninguém ia perder dinheiro. É assim que, em geral, banco segura a manada, para evitar mal maior. Nem isso adiantou. O pessoal continuou a vender. Reuniões de emergência, os americanos foram chamados pra dar opinião, recomendaram prudência. Se isso vira moda, todos perdem. Conclusão: a mulher poderosa, muito orgulhosa, pôs vestido preto, cara de funeral, bateu em retirada, suspendeu o presente para os ricos. Disse que ia reavaliar. Não sabe agora se vai em frente ou se desce. A opinião mais frequente é que ela dura pouco, não se aguenta. Vai arranjar uma desculpa qualquer, voltar pra casa, ficar quieta por uns tempos. De líder vai passar a liderada. Vai receber um ciao.
O mundo está mudando. Mas não é como muita gente acha, que amanha o capitalismo vai ruir. Vamos com calma. Isso é um processo longo, demorado, complicado. As coisas não são assim, tão simples. Vai ter adaptação à realidade, muitas concessões para ganhar tempo. Tanto assim que, logo depois de eleito, o Joe Biden anunciou um programa de governo cheio de presentinhos para os pobres e a classe média. Fez aquele sorriso simpático -- os velhinhos sabem, pra angariar simpatia, espantar a raiva -- quer fazer creche, ampliar as escolas públicas, fortalecer sindicatos, tapar buraco nas estradas, cuidar melhor do meio ambiente. Ao mesmo tempo em que cutucou o Putin para admitir a Ucrânia na OTAN, aumentou as pressões contra o XI Jinping, está despejando montanha de armas em Taiwan, pra separar definitivamente essa ilha da China continental.
O que se percebe é que os chineses avançam. Hoje começa um novo congresso do partido comunista deles, onde vai ter novidade. Os americanos estão preocupados, tentam segurar, não vão entregar nada fácil. O jogo está esquentando. Se começarem os tiros, vá lá pra dentro de casa, busque um lugar seguro e fique olhando por uma janelinha. Tomara que as bombas não cheguem aqui. Vai ser fascinante acompanhar essa confrontação. Tomara que o nosso novo presidente tenha condições de fazer algumas sugestões para a paz. É disso que precisamos.

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