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2023 Parte II – O Terreno Armadilhado (por Frega Jr)

Estamos emergindo de um período de governo ideologicamente afim ao neoliberalismo arcaico, de trinta anos atrás, executado por militares utilizando a caneta de um fantoche miliciano e com uma compra parlamentar nunca vista em toda nossa história, que nunca foi dignificante nesse particular.

São cores escuras as das nuvens que vemos no horizonte. Esse projeto liquidou toda a rede de proteção social construída e ainda em construção, contestou valores até então consagrados de civilidade, malbaratou riquezas nacionais, trouxe à tona o reacionarismo latente pré-abolição, conjugado com o herdado das correntes migratórias europeias que não chegaram a sofrer os impactos pelos efeitos do nazifascismo, como ocorreu na Europa.
Nabuco afirmou que a escravidão permaneceria por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Foram palavras proféticas. Mudou a roupagem da escravidão, modernizou-se, porém vive em segmentos reacionários dispostos a se impor por látegos e chicotes, fuzis e carabinas.
São segmentos minoritários em quantidade, majoritários em poderio econômico. De certa forma, os mesmos estratos de sempre e que Nabuco sabiamente indicou que continuariam a ser característica nacional. O poder econômico no domínio de gado e gente, poeticamente denunciado por Vandré em Disparada.
Esses segmentos são os mesmos que armadilharam o caminho da reconstrução e que farão todas as escaramuças para dificultar a caminhada.
O antigo reacionarismo rural se alia ao dos cassinos financeiros. Basta ver as intenções de votos para detectar o cinturão do atraso sócio-político, que se inicia no sul e descreve um arco pelo oeste até o extremo norte.
Tão claro isso.  E quais serão as armadilhas que precisarão ser desmontadas? Em primeiro lugar, o pacote de bondades eleitoreiras.

Quando o governo dos marechais se deu conta de que suas chances eleitorais eram reduzidas e que um golpe era politicamente inviável, objeto de recados internacionais explícitos incluindo de seus patrões estadunidenses, apelaram para uma tentativa de ganhar popularidade junto aos eleitores.

Com o manejo de verba orçamentária bilionária de uso discricionário, foram aprovadas algumas bondades populistas, absolutamente inconstitucionais, contando com a cumplicidade e servilismo da Procuradoria Geral da República para o blindagem institucional e colocando em xeque o Judiciário.
Essas medidas, que representam gastos bilionários, valem somente até o final do atual mandato. Ou seja, cobre o período eleitoral.
Caso ocorresse a reeleição, o objetivo já estaria atendido, poderiam ou não ser renovadas parcialmente no novo mandato e a própria militância se encarregaria de neutralizar reações pelo estelionato.
Sendo perdida a eleição, o novo presidente já começaria seu mandato com a impopularidade do fim dos auxílios adicional do Bolsa Família renomeado, a caminhoneiros, a taxistas e, de quebra, o fim da redução do ICMS nos Estados, implicando em imediato aumento dos combustíveis.

Ou seja, de cara a inflação já explodiria no primeiro mês do novo mandato e esse fato seria explorado como consequência da assunção de segmentos políticos não da extrema direita, o que a militância chama de comunistas.
É o mote e bandeira que imaginam para fustigar o novo governo e retirar-lhe a popularidade eleitoral, erodindo sua base de apoio popular.

Essas são as armadilhas mais comprometedoras, verdadeiras minas enterradas e bombas de retardo espalhadas no terreno da retirada.
Há outras mais endêmicas: a estagnação econômica, o desemprego, o fim da rede de proteção social, como a liquidação de fato de programas sociais de amparo, como a Farmácia Popular e das Creches, o comprometimento dos recursos à educação e saúde pública, tudo isso composto na proposta orçamentária para 2023 já encaminhado ao Congresso e que engessa a gestão no primeiro ano dos mandatos.
Por essa razão é tão importante a vitória já no primeiro turno, dá legitimidade às negociações prévias dos novos governantes com o Congresso em fim de mandato.

É hora de os sapadores entrarem em campo.

(sequência do artigo anterior: em https://blogdopensamentocritico.blogspot.com/2022/09/2023-o-recomeco.html)

(continua em https://blogdopensamentocritico.blogspot.com/2022/09/2023-parte-iii-pra-comeco-de-conversa.html

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